17/06/2017

Reflectir

Museo Nacional de Ciencia y Tecnología, Coruña


A língua portuguesa é rica e dolorosa quando quer. Detesto vulgaridades.
Gaja, é calão ou é vulgar?



13/06/2017

a Senhora Duquesa de Brabante

Um dia feliz é aquele em que nas memórias do mar se descobrem poemas como este de Gomes Leal: Senhora de Brabante.
Gratíssima a quem me falou nele.



Agradeço a todos a visita. Em breve regressarei. :)) 

A Senhora de Brabante

Tem um leque de plumas gloriosas,
na sua mão macia e cintilante,
de anéis de pedras finas preciosas
a Senhora Duquesa de Brabante.

Numa cadeira de espaldar dourado,
Escuta os galanteios dos barões.
— É noite: e, sob o azul morno e calado,
concebem os jasmins e os corações.

Recorda o senhor Bispo acções passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam barões de festas e caçadas
à moda goda: — aos toques dos clarins!

Mas a Duquesa é triste. — Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

Dizem as lendas que Satã vestido
de uma armadura feita de um brilhante,
ousou falar do seu amor florido
à Senhora Duquesa de Brabante.

Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
mais louro do que o sol, marmóreo, e lindo,
tirar de uma viola estranhas mágoas,
pelas noites que os cravos vêm abrindo...

Dizem mais que na seda das varetas
do seu leque ducal de mil matizes...
Satã cantara as suas tranças pretas,
— e os seus olhos mais fundos que as raízes!

Mas a Duquesa é triste. — Oculta mágoa
vela o seu rosto de um solene véu.
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

O que é certo é que a pálida Senhora,
a transcendente dama de Brabante,
tem um filho horroroso... e de quem cora
o pai, no escuro, passeando errante.

É um filho horroroso e jamais visto! —
Raquítico, enfezado, excepcional,
todo disforme, excêntrico, malquisto,
— pêlos de fera, e uivos de animal!

Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
aborto e horror da brava Natureza...
— Em vão tentam barões, com mil discursos,
desenrugar a fronte da Duquesa.

Sempre a Duquesa é triste. — Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

Ora o monstro morreu. — Pelas arcadas
do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...

Riem-se os monges pelo claustro antigo.
Riem-se vilões trigueiros das charruas.
Riem-se os padres junto ao seu jazigo.
Riem-se nobres e peões nas ruas.

Riem-se aias, barões, erguendo os braços.
Riem, nos pátios, os truões também.
Passeia o duque, rindo, nos terraços.
— Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...

Só, sobre o esquife do disforme morto,
chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto...
— Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!

Só ela chora pelo morto!... A mágoa
lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...


António Duarte Gomes Leal, in Antologia Poética, retirado do Citador


10/06/2017

notivagos - os anjos também choram

Notivagos


Do novo livro da minha amiga Graça, uma escolha para o Dia de Portugal (de Camões e das Comunidades Portuguesas):

os anjos também choram

os anjos também choram
mesmo nas manhãs mais sublimes
quando o sol acorda lento e devagar
as lágrimas dos anjos
são risos e asas e brandura
homens a digladiar-se 
festas e risos falsos 
quando os anjos adormecem
são felizes e riem
porque sonham com o Éden
onde moram para sempre
e deixam de ser anjos
a afugentar monstros e lobisomens
numa corrida desesperada
de asas incansáveis
mas se já não há deuses
que importa o choro dos anjos
a derramar-se para cá das nuvens
e a fazer infelizes os homens
que sentem as suas lágrimas

Graça Alves, Da Timidez dos Homens, Coimbra: Palimage, 2017, p.42.

 

02/06/2017

Jardim privado sem "neblina"

Olhar proibido para o jardim privado.

A neblina

Realmente, não é sábio
Aquele que não conhece a escuridão,
Que inevitavelmente e em silêncio
Nos separa dos outros.

É estranho andar na neblina!
A vida é solidão.
Nenhum de nós conhece os outros,
Todos estamos sozinhos.

Herman Hesse "A neblina" in A Sublime Arte de Envelhecer de Anselm Grün [monge beneditino] (Prefácio de Mons. Vitor Feytor Pinto). Prior Velho, Edições Paulinas, 2011 (3ª edição), p. 46.




19/05/2017

Silêncio - Um olhar sobre a montanha

Ao fundo a montanha.

Silêncio

Folhas de acanto, banco de namorados, nostalgia soalheira...
canto primeiro donde reconheceu a cegueira  
dando lugar ao arrependimento.

Pedra  simbólica, conta a história
pelas mãos da arquitecta,
incauta pensadora.

Vertigens, desequilíbrios, 
um gosto atractivo pelo abismo.
Mergulho simbólico no vazio
à procura de uma resposta: silêncio secular.

ana



17/05/2017

Yesterday

was black day...



Uivemos, disse o cão.
Livro das Vozes

José Saramago, Ensaio Sobre a Lucidez. Lisboa: Caminho, 2004, s/nº p



15/05/2017

A arte e a fé

O Papa Francisco trouxe dois novos Santos a Portugal e focou a essência do espírito peregrino.
Com a vinda do Santo Padre também, a cidade se vestiu de objectos simbólicos: o coração gigante e o terço gigante que irradia luz.


Escultura de Fernando Crespo- Coração Francisco, 2017
12mX12m

Suspensão, Terço de Joana Vasconcelos, 2017

Se de alguma forma se sente a paz, também, se pode sentir uma grande inquietude.



linda...

12/05/2017

Maria

Maria é a mãe que, com paciência e ternura, nos leva a Deus, para que Ele desate os nós da nossa alma.
O lugar de Maria na Igreja segundo o Papa Francisco.

É em Maria que a «profecia», no sentido cristão do termo, se define melhor, a saber, em razão da capacidade interior de escuta de Maria, da sua capacidade de perceção e da sua sensibilidade espirituais, que Lhe permitem captar o murmúrio inaudível do Espírito Santo, assimilando-o perfeitamente, fecundando-o, oferecendo-o ao mundo imediatamente depois de o ter fecundado. Por esta razão, pode dizer-se que, num certo sentido, mas sem se ser categórico: é o princípio mariano que incarna o caráter profético da Igreja.

Cardeal Joseph Ratzinger, «O Problema da Profecia Cristã», em entrevista de Niels Christian Hvidt, 30Giorni, janeiro de 1999.


09/05/2017

"Sobre o Caminho"

A chegar ao destino?


Sobre o Caminho

Nada
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu
Despe-te
não há outro caminho


Eugénio de Andrade, Véspera da Água. Lisboa: Assírio e Alvim, 2014 (2ª edição)


06/05/2017

Bizarro mas com harmonia

Como é possível tirar harmonia deste instrumento bizarro?



A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

s.d.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Vol II."Fase confessional", segundo António Quadros (org.) Mem Martins: Europa-América, 1986.



03/05/2017

Para a Graça

Parabéns Graça!
Um dia muito feliz.

Uma rosa com graça para a Graça que vive a vida e a escrita com paixão.:))




SOS Azulejo

Detalhe do painel de azulejos da Igreja de Nossa Senhora do Olival, Lisboa,
Lua
SOS Azulejo é um projecto levado a cabo pelo Museu da Polícia Judiciária para promover a valorização do património azulejar português junto aos jovens, propondo às escolas a participação com trabalhos pedagógicos.

Dói a alma ver azulejos centenários, e não só, delapidados, roubados, deixando uma ausência e um vazio no espaço e na história que está a narrar.

ACÇÃO ESCOLA SOS AZULEJO 2017 realiza-se hoje, dia 3 de Maio, a nível nacional.

OBJETIVOS DA ACÇÃO: Chamada de atenção e sensibilização para:
 - A importância e carácter únicos do património azulejar português, a que importa dar continuidade; 
- O actual problema da sua grave delapidação por furto, incúria e vandalismo;
- A necessidade da sua valorização, protecção e fruição por todos os portugueses. 
[Retirado do site do MPJ]

O Museu da Polícia Judiciária conta com várias parcerias salienta-se a do Museu do Azulejo.


27/04/2017

Abril de Sim Abril de Não

A arte e as Humanidades, a palavra e a imagem, hão-de sempre prevalecer.

Abril de Sim Abril de Não

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.


Manuel Alegre
30 Anos de Poesia
Publicações Dom Quixote

21/04/2017

Toucado

Toucado cuidadosamente trabalhado,
florescência branca,
                        perfume feminino,
vaidade natural...
                                         Beleza!

Goa

15/04/2017

"formoso dia"

Porque os importunamos?


Os coelhos estão escondidos nas tocas. Os ovos da Páscoa ainda não chegaram por isso é com este olhar de peixe que desejo a todos uma
Páscoa Feliz!



Amanheceu o sol neste formoso dia mais arraiado que nunca, acrescentando tantos raios a seus naturais resplendores, quantos tinha eclipsado e escondido no dia da Paixão: e que é o que achou no mundo o mesmo sol, ou quando nasceu no Oriente, ou quando se foi pôr no Ocaso? Quando nasceu achou a terra orvalhada das lágrimas da Madalena, como se ela fora a aurora daquele dia: Mulier, quid ploras?


Trecho do Sermão da Primeira Oitava da Páscoa, na Igreja Matriz da Cidade de Belém, do Grão-Pará, 1656, de Padre António Vieira. (cap.I).


13/04/2017

"Suavium"*= Beijo

A Primavera no seu esplendor ,
com ela chegou também o dia do Beijo.

No universo da música ficam duas propostas, Besame mucho, uma recordação de infância, e Kiss me, uma canção do século XXI.

O poema que escolhi para homenagear o dia é de António Aleixo. 

*Suavium (ler)


O Beijo Mata o Desejo

MOTE

«Não te beijo e tenho ensejo
Para um beijo te roubar;
O beijo mata o desejo
E eu quero-te desejar.»

GLOSAS
Porque te amo de verdade,
'stou louco por dar-te um beijo,
Mas contra a tua vontade
Não te beijo e tenho ensejo.

Sabendo que deves ter
Milhões deles p'ra me dar,
Teria que enlouquecer
Para um beijo te roubar.

E como em teus lábios puros,
Guardas tudo quanto almejo,
Doutros desejos futuros
O beijo mata o desejo.
Roubando um, mil te daria; 
 


O que não posso é jurar
Que não te aborreceria,
E eu quero-te desejar!


António Aleixo, in
"Este Livro que Vos Deixo..."

Gustav Klimt, O beijo, 1907-1908,
Österreichische Galerie Belvedere, Áustria

Com a gentileza do Youtube

11/04/2017

In Memoriam

Maria Helena da Rocha Pereira, 2001
Fotografia de Paulo Ricca, Jornal Público

Há muito se formou entre os mortais
       esta sentença vetusta: a humana  felicidade,
       quando sobe a grande altura,
não morre sem filhos.


Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica, Volume I. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (5ª edição), 1979, p. 352.


01/04/2017

Um smile para...

... todos e em especial para o amigo Henrique que regressou de Goa.:))


De um livro que comecei a ler e que agradeço a MR. Retive logo da página inicial, da introdução, estes axiomas:

É nos cérebros que se dão os primeiros duelos. No de cada um, primeiro; depois nas divergências deste e daquele; e, por fim, no terreiro público.

Introdução de Raúl Rêgo à obra Os Burros, de José Agostinho de Macedo, editado pelo Circulo dos Leitores em 1993, p. 7.

(Para o Henrique que trava um duelo).


30/03/2017

25/03/2017

Amanhecer



Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.


William Shakespeare

Porque me recordaram esta ópera Rock ...

22/03/2017

O pagador de promessas

No dia 21 de Março celebrou-se o dia da poesia. O esquecimento é imperdoável. Porém, nunca é tarde para lembrar a poesia. Hoje, chegou até mim uma frase que achei poética, ouvi que havia quem vivesse de pagar promessas dos outros e, por isso, se chama o pagador de promessas, achei tão poético.

O Pagador de Promessas

O pagador de promessas 
é um homem estranho,
cumpre o que o devedor não pode cumprir.
Paga  o choro interior, a dívida espiritual,
o pacto do homem religioso.
O pagador de promessas
vive para anular a inquietude dos outros.

ana
Agradeço a quem me falou nesta personagem.


O AUTOR AOS SEUS VERSOS

Vós, que de meus extremos sois a história,
Versos, por negro zoilo em vão roubados,
Nascidos da Ternura, e restaurados
Co pronto auxílio de fiel memória:

Da inveja conseguindo alta vitória
Ide, meus versos, em Amor fiados,
Que dele só dependem vossos fados,
Que nele só demando a minha glória:

Não vos importe o público juízo;
Da voz, que pelo mundo se derrama,
Os vivas caprichosos não preciso.

Voai aos olhos, cuja luz me inflama;
Tereis de Anarda aprovador sorriso,
Um sorriso de Anarda é mais que a Fama.

Bocage ( retirado do banco de dados da Casa Fernando Pessoa)


18/03/2017

Numa pequena janela

Numa pequena janela
está uma gata à espreita do sol.

A casa não se mede pelo tamanho
mas sim pela alegria que cabe lá dentro.



16/03/2017

O riso do Astro-Rei

« (…) O riso é o final do racional; o pranto é o uso da razão (…) 
Há chorar com lágrimas, chorar sem lágrimas e chorar com riso:
 chorar com lágrimas é sinal de dor moderada, 
chorar sem lágrimas é sinal de maior dor; 
e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva...»

O Pranto e o Riso ou as Lágrimas de Heráclito
Discurso integral do Padre António Vieira, 
em Roma no ano de 1674, a convite da Rainha Cristina da Suécia

Paulo Neves da Silva, Citações e Pensamentos de Padre António Vieira, Alfragide: Casa das Letras, 2010, p. 30.

O riso do Astro-Rei

Nasce a levante o Astro-Rei,
não há ruído senão o som da Natureza,
como o marulhar do mar que não está presente.

Contraste de cores, preto, amarelo - ocre,
paleta quase fauve com traço naturalista 
desenha-se no horizonte visível.

O livro aberto, as páginas escolhidas,
as letras sublinhadas resultam da leitura obrigatória,
esquecimento do sonho risível,
do diálogo entre o choro e o riso.

O choro dos tolos é fácil de brotar,
o riso dos fracos fortalece o pensamento,
constrói uma torre de Babel...
Chorar com riso é sinal que se vive sem viver.



11/03/2017

Diálogo


Para além da curva da estrada                                                                    No caminho

Para além da curva da estrada                                                       Encontramos sempre uma barreira
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,                                    vislumbro uma torre contra a utopia,
E talvez apenas a continuação da estrada.                                   Na continuação do caminho.
Não sei nem pergunto.                                                                   Nele me embrenho.
Enquanto vou na estrada antes da curva                                      enquanto caminho, só olho em frente
Só olho para a estrada antes da curva,                                         para as árvores e o céu,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.                 Porque não adivinho o que há para lá
De nada me serviria estar olhando para outro lado                      do caminho e que não vejo.
E para aquilo que não vejo.                                                            Procuro não sentir mas sinto,
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.                            O passado/presente e não o futuro
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.                  Clepsidra tangível;
Se há alguém para além da curva da estrada,                                             não encontro quem caminhe
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.      Para lá da montanha,
Essa é que é a estrada para eles.                                                                  o caminho para o cume
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.               Chegarei lá?
Por ora só sabemos que lá não estamos.                                          Só sei e sinto o peso de estar aqui,
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva                  nesta encruzilhada do caminho onde
Há a estrada sem curva nenhuma.                                      as pedras magoam e o caminho desaparece.

Alberto Caeiro, s.d.                                                                                           11-03-17 ana


Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p. 129.


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