19/02/2017

padrão/paradigma

padrão = modelo, paradigma.                                      Mário Cesariny, Naniôra, Uma e Duas, 1960, Centro Aarte Moderna Azeredo Perdigão, Fundação Calouste Gulbenkian


O paradigma humano é dos mais difíceis de entender. Porém, há um conjunto de sinais que se repete, que se constrói, que vêm a delinear e a desenhar um rosto.
Nem sempre queremos ver o rosto que sai do papel, embora, o tenhamos presente, não o queremos ver. Os olhos traem a nossa mente.
Do esboço, no entanto, sai um rosto real que nos observa, que nos trai, que nos interpela de diferentes maneiras, que nos distrai, que nos confunde e que no final fica só.
Há o fio umbilical ligado a si próprio, tal narciso, nem da posição fetal se recorda. 
Há um princípio e um fim mas a realidade fica à margem deste ciclo e acaba... mal.

ana


16/02/2017

"Basium, osculum e suavium"


“Beije-me ele com os beijos da sua boca: Porque teu amor é melhor do que o vinho”
 Cântico dos Cânticos, Bíblia

Há muito, muito tempo, beijar era um acto que se dividia em várias dimensões. Tudo podemos sistematizar e organizar julgando que assim criamos conhecimento. Os romanos tinham 3 tipos de beijos: o basium, trocado entre conhecidos; o osculum, dado apenas em amigos íntimos; e o suavium, que era o beijo dos amantes.
No beijo ao anel dos bispos ainda temos uma herança do mundo romano. Contudo, é o suavium que aqui nos interessa, a mesma raiz linguística que nos remete para o belo texto religioso musicado para coros por muitos dos mais magistrais mestres em composição.
Ao contrário da mundivivência latina, hierarquizada e quase por castas, o beijo nos lábios, na boca, remete-nos para o campo da partilha, e não da hierarquia. No beijo todos são iguais. No beijar, as duas bocas são a imagem da igualdade na dádiva.
E o que são dois amantes? Recordo um amigo que há uns meses dizia numa conferencia que a base da palavra francesa para conhecimento era exactamente a ideia de «nascer com...». "Connaître" = "con"+"naître". No fundo, só conhecemos aqueles com quem nos damos de tal forma que tornamos a nascer. Se o êxtase sexual pode ser solitário, o beijo dificilmente é masturbatório. Há sempre um outro no beijar. É sempre com...
Há beijos que ficam na memória. A intensidade, a doçura, tudo neles nos deixa recordações inesquecíveis. Os lábios, a pele, os jeitos de entrega e de partilha. Sim, recordo a imagem do texto gnóstico em que o beijo de Jesus a Maria Madalena era... de amante ou de transmissão de sabedoria?...
Mais que igualdade, o beijo é, de facto, conhecimento – e agora não o cartesiano, não hierarquisador, mas interior, do ser irrepetível que cada um expressa no beijo. É do campo da Verdade, o in vino veritas, ou inebriamento desse mesmo néctar como o Cântico dos Cânticos nos indica.
O beijo possibilita, numa catadupa de sentimentos, aceso ao íntimo, ao recôndito e tantas vezes escondido ou esquecido. O beijo marca. Um beijo deixa marca como a que ficara no ombro – “toquei-te no ombro e a marca ficou lá”, dizia Sérgio Godinho; se esse toque tivesse sido um beijo, desejo eu, Estrela!
No limite, na troca de um beijo intenso, nas humidades e fluídos variados, há um renascer com a parceira, há um baptismo vivido, uma imersão, na intensidade do Eu e do Tu que se misturam.
Sim, o Beijo é um conhecimento que é entrega, porque partilha. É o «Com» que dá sentido. Um sentido recíproco que torna todos os momentos verdadeiramente únicos, irrepetíveis e de constante re-nascimento.
Renascer, crescer, viver. Tudo se conjuga com beijar.»
Paulo Mendes Pinto, In Visão

14/02/2017

naïve

Qual deles escolher?

naïve  - having or showing unaffected simplicity of nature or absence of artificiality;
- unsophisticated;
- ingenuous.

Elena A. Volkova, Young Girl from Sibera. Daqui



12/02/2017

Em torno do beijo

Francesco Hayez, O beijo, 1859, Pinacoteca de Brera, Milão

Detalhe retirado do Guia da Pinacoteca de Brera

Wikipédia

O beijo uma tela de Hayez, romântica no cenário, na emoção e no brilho azul celeste do vestido.
A luz emana da mulher; a sombra da figura masculina projecta-se no enlace fulgoroso, na pujança varonil; a fragilidade e a doçura feminina exaltam a entrega. Modelos intemporais.

O que estou a ouvir:

10/02/2017

Janela aberta

Em especial para a minha amiga Alexandra, a quem 
deixo os meus parabéns com um "Magritte" real e com 
o desejo de um dia perfeito!

Janela aberta

O que posso desejar?
Que seja Feliz!

04/02/2017

Cansaço

Um simples banco vermelho de jardim vazio...


Devido a algum cansaço agradeço a todos a presença amiga.
Logo que possa reapareço.



02/02/2017

Narciso


Narciso


Narciso
amarelo
que redundância...
pequeno
na mão
grande 
aos olhos.
Belo na imagem
terrível no ser,
mas tão necessário por vezes,
mesmo que entristeça
o seu autismo.

Força de vencer.


29/01/2017

O tempo...


Tenho uma lista enorme de livros e agradecimentos a fazer a quem mos ofereceu, porém, comecei a ler um que me emprestaram, cujo tema é pertinente nos tempos que correm. O tempo, sempre ele, em espiral, construindo a História mas nunca acaba com os mistérios.

O tempo, diz-se, são os da comunicação e do conhecimento mas no íntimo de cada um dos presentes, atravessa a suspeita dolorosa de estarem cada vez mais próximos da solidão e do desconhecimento de si e dos outros. Sobretudo, dos outros, para quem é mais fácil olhar do que virar os olhos para dentro. 

Ana Zanatti, E onde é que está o amor?, Lisboa: Guerra e Paz, Editores, SA., p.10


28/01/2017

No reino dos gatos

No reino dos gatos os cães ladram fino...


Gata

É de veludo 
roça-se em mim,
chora comigo.
Ri-se de mim
num ron ron 
sem fim...

Chama-se Rita
mas não tem saia...
dança comigo,
troça de mim,
depois adormece
na almofada de cetim.

ana

23/01/2017

In Memoriam - A H. Oliveira Marques

Os homens vivem através dos seus livros e das memórias que deixaram. 
O historiador A. H. Oliveira Marques é uma figura incontornável 
do conhecimento da História em Portugal.

Aqui fica um trecho de um tempo e uma época da História de Portugal.



A H. Oliveira Marques,"Da Monarquia para a república", in História de Portugal (Org. José Tengarrinha). S. Paulo: Editora da Universidade do Sagrado Coração, pp.283-296.

21/01/2017

Névoa



Quando há harmonia o caos instala-se como se a névoa não fosse passar.


16/01/2017

Um minuto...




Não há hipócrita que saiba resistir ao exame de uma longa, de uma paciente observação, e o trabalho dissimulado de um ano perde-se na distracção de um minuto.

Paolo Mantegazza


15/01/2017

Do apolíneo ao dionísiaco

Do apolíneo ao dionísiaco

Salvator Rosa, La menzogna (1635-1673), 

Galleria Palatina di Palazzo Pitti a Firenze
daqui
Imagem relacionada
Apolo nasce virtuoso,
cumpre o destino luminoso.
Dionísio canta pela noite
a sombra e os gracejos do prazer.

Apolo transporta as pautas musicais,
o espanto perante a melodia.
Dionísio traz consigo as uvas e o mel,
a bebida do esquecimento.

Apolo beija as flores da manhã,
escuda com a luz a fragilidade humana.
Dionísio traz a máscara do teatro,
num esgar mostra a verdade e a mentira.

A máscara de Apolo é dourada,
a de Dionísio é negra, da cor do carvão.
Botticelli pintou Apolo
e Caravaggio pintou Dionísio.

Ergo o espelho do chão e vejo
Apolo transformar-se em Dionísio
e Dionísio transformar-se em Apolo.
Apolo e Dionísio são uma e a mesma pessoa.

ana

12/01/2017

Há livros que são bálsamo!

Sabe, é curioso, eu tenho cores de Verão e cores de Inverno. Quando está calor gosto de pintar em azul, em verde, em branco. O branco, aliás, posso usá-lo durante todo o ano. E quando está frio gosto do vermelho.

Vieira da Silva in, O Fulgor da Luz, Conversas com Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. 
Um livro de Anne Philipe traduzido por Luiza Neto Jorge e editado pela Rolim, Lisboa, sd, p. 14.


Está um frio que faz doer a alma e este livro foi um bálsamo que amenizou a dor.

Obrigada.




Ouvi hoje no rádio do carro a voltar para casa. Um dos meus álbuns preferidos dos Pink Floyd


09/01/2017

Um destino, a História, 2 marcos e mundos diferentes

Talvez seja polémica a minha homenagem por juntar dois rostos tão antagónicos. Contudo, o primeiro a quem presto aqui homenagem existiu e construiu-se  a combater o segundo.
Dois homens que marcaram quatro décadas, influenciaram meio século e estiveram em actividade política exactamente 42 anos: contando ao primeiro (de forma livre) a partir de 1974 a 2017 e ao segundo a partir de 1926 (ministro das Finanças) a 1968. Dois rostos incontornáveis na História de Portugal.


                      Retrato presidencial de Mário Soares,
                         Júlio Pomar, 1992    (Wikipédia)                                     António de Oliveira Salazar
                                                                                                                         (Wikipédia)
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Felizmente, vivi mais tempo em democracia do que em ditadura. Contudo, lembro-me destes dois mundos, do que se estudava na escola, das mentalidades e da ruptura que constituiu viver num e noutro.
Cabe-me agradecer ao Dr. Mário Soares ter tido a coragem que teve, ter optado por construir a sua vida como a construiu e ter feito de Portugal uma democracia.


06/01/2017

O que nos espera? Do relativismo das coisas...

O que nos espera? 


O que será a melhor fotografia tirada no ano de 2016? 
Um momento guardado, um gosto subjectivo? Um rosto?, uma paisagem?, uma flor? um conceito? 
O melhor, o que é o melhor hoje? Será o melhor amanhã? Será mais estético um rosto ou uma flor?, uma paisagem urbana ou uma rural?, uma casa ou um rio? Tudo é relativo. Daí o melhor de 2016 ser uma preposição obscena. Daí a minha escolha assentar no critério da fotografia conceito: o vazio, as brumas a assinalar este começo do ano, neste dia de Reis. Um dia em que o ouro, o incenso e a mirra foram a oferta para o príncipe entre os Príncipes.


Com o meu agradecimento a Bea que me deixou esta surpresa de Chopin. 
[... tenho saudades da Primavera!]

04/01/2017

Diálogo improvável

   
     VII
Saber? Que sei eu?                           Nada sei.
Pensar é descrer.                              Quanto mais penso, menos sei.
- Leve e azul é o céu -                       Neste céu de chumbo
Tudo é tão difícil                               Que me cerca.
De compreender!...                           O que entender?

A ciência, uma fada                           Viver, é caminhar
Num conto de louco...                        estranhamente 
- A luz é lavada -                               numa bruma sem fim.
Como o que nós vemos                     O perceptível
É nítido e pouco!                               é mínimo e claro.

Que sei eu que abrande                      O que aprendi eu
Meu anseio fundo?                             Que alimenta o meu desespero?
Ó céu real e grande,                           A realidade nua e crua,
Não saber o modo                              Os outros com que me cruzo
De pensar o mundo!                            De quem nada sei, nem ouço!

4-XI-1914                                            4-I-2017

Fernando Pessoa *                                 ana

*Fernando Pessoa, Cartas a Armando Côrtes- Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão) Lisboa: Editorial Inquérito Lda, 1984 (2ª Edição) p.  88.


02/01/2017

Dualidade

Fogo de artifício a assinalar o Novo Ano:
Duas estrelas
Ao ler a introdução de Joel Serrão no livro, Fernando Pessoa Cartas a Armando Côrtes-Rodrigues, encontrei como resposta possível para os estados de alma de Pessoa, uma citação de António Sérgio sobre  Antero e os seus Sonetos, a qual determinava a "dualidade irredutível" do escritor. Esta dualidade fascinou-me sempre, daí a vontade em a registar e partilhar. O homem tem sempre algo de apolíneo e de dionisíaco. O resultado entre esses dois mundos depende do livre arbítrio.


Imagem relacionada«Dois Anteros, imagino eu»; - continua o ilustre ensaísta - chamemos-lhe, por comodidade, o Apolíneo e o Nocturno (ou Romântico). Ao primeiro, domina-o o espírito crítico do filósofo; ao segundo, o temperamento mórbido do homem. Canta o primeiro a lucidez do intelecto, o heroísmo apostólico, o claro-sol; prega o auto-domínio e a consciência plena a concentração da personalidade e da actividade pensante; afirma ao mesmo tempo uma filosofia da imanência, intelectualista e aristocrata, e exalta o Amor e a Razão, concebidas como sendo irmãs, fontes de ordem e de harmonia no indivíduo e na sociedade; o segundo pelo contrário, canta a noite, o sonho, a submersão, a morte, «as regiões do vago esquecimento», a dissolução da personalidade, e o repouso da alma no Deus transcendente, na «humilde fé das obscuras gerações».*

Fernando Pessoa, Cartas a Armando Côrtes- Rodrigues. (*Introdução de Joel Serrão) Lisboa: Editorial Inquérito Lda, 1984 (2ª Edição) p. 29-30


31/12/2016

Feliz Ano Novo!

Feliz Ano Novo para todos!
Os meus votos para o ano vindouro são:
- Inteligência;
- Amor;
-Lucidez;
- Paz;
- Fortuna.


Luz de dentro

Miminhos que recebi  e que muito agradeço.:))


 



30/12/2016

Nuvens

A nuvem invólucro arquitectónico.
A Coluna de Nelson, Trafalgar Square

NUBES (I)

No habrá una sola cosa que no sea
una nube. Lo son las catedrales
de vasta piedra y bíblicos cristales
que el tiempo allanará. Lo es la Odisea,
que cambia como el mar. Algo hay distinto
cada vez que la abrimos. El reflejo
de tu cara ya es otro en el espejo
y el día es un dudoso laberinto.
Somos los que se van. La numerosa
nube que se deshace en el poniente
es nuestra imagen. Incesantemente
la rosa se convierte en otra rosa.
Eres nube, eres mar, eres olvido.
Eres también aquello que has perdido.


NUBES (II)

Por el aire andan plácidas montañas
o cordilleras trágicas de sombra
que oscurecen el día. Se las nombra
nubes. Las formas suelen ser extrañas.
Shakespeare observó una. Parecía
un dragón. Esa nube de una tarde
en su palabra resplandece y arde
y la seguimos viendo todavía.
Qué son las nubes? Una arquitetura
del azar? Quizá Dios las necesita
para la ejecución de Su infinita
obra y son hilos de la trama oscura.
Quizá la nube sea no menos vana
que el hombre que la mira en mañana.

Jorge Luís Borges, De Los Conjurados (daqui)

27/12/2016

"Escuta, lenhador..."


Seurat, La Tour Eiffel, ca. 1889, 24,1 x 15,2 cm Fine Arts Museums of San Francisco, Museum purchase, William H. Noble Bequest Fund (daqui)



Escuta, lenhador...
Todos os anos vejo as árvores desaparecerem. Pode dizer-se que voltam a ser plantadas, mas nunca se reencontram tantas como anteriormente e é sempre um número mínimo que volta a estender os seus jovens ramos em direcção ao sol ou que agita a sua cabeleira ao vento.
Paris é a única cidade onde se tratam  assim as nossas irmãs árvores; nem Berlim nem Londres, para citar apenas cidades civilizadas, demonstram um tal desconhecimento da natureza. Todos os anos, sob os mais diversos pretextos, as nossas avenidas apresentam um desfile digno dos «infortúnios de guerra» e os mutilados expõem os seus cotos perante a indiferença dos automóveis, em grande medida responsáveis por esta desastrada exterminação. Se, como diz Aristóteles, as árvores são pessoas que sonham, o que pensará a árvore dos seus carrascos? Não quero fingir que lhe dou voz, porque ela tem a seu favor o silêncio dos amantes, as brincadeiras das crianças, as divagações dos solitários e um povo livre sem constrangimentos, ou seja, os pássaros.

Julien Green, Paris. [1983]( Tradução Carlos Vaz Marques) Lisboa: Tinta da China, 2008, p. 105.

Um livro que só agora li por razões várias e porque revisitei Paris nesta época natalícia há uns tempos atrás. Saudades de Paris? Talvez.

Em homenagem a mais uma partida do mundo da música:
(1963-2016)

23/12/2016

Feliz Natal!

A todos um Feliz Natal! 


Numa bola de sabão ...
uns flocos de neve pairam
sob um presépio
que tem uma base barroca: 
 uma caixa de música que canta alegria.


Em re-re-reposição porque gosto muito de ouvir este poema neste dia

19/12/2016

Vento


Vento
A porta da igreja está aberta 
e o presépio em construção.
Os sinos silenciosos marcam
a sexta-feira sombria.
Folhas rolam pelo chão...
com o som agudo e agreste do vento
As muralhas defensivas
talvez defendam dos ataques dos homens,
mas não da Natureza.
Faz frio porque o vento bate fortemente
chamando por mim,
não sei se hei-de ficar ou partir com o vento.


ana

(Agradeço a todos a visita, em breve poderei retribuir)

12/12/2016

Passado/Porvir - Diálogo

Danny Galieote, The Great Escape

"The Great Escape," oil on canvas, by Danny Galieote



Na realidade afigura-se mais lógico, mais fácil, e mesmo mais interessante, conhecermo-nos primeiro em Passado do que em Porvir, - já que ignoramos um e outro.

Mário de Sá-Carneiro, A Estranha Morte do Professor Antena. (Prefácio de Nuno Júdice). Sintra: Colares Editora, p. 26.

...............

O que é o presente?
Algo que conhecemos
e vemos como algo que não atingimos.

O que é o passado?
As memórias doces e amargas
de algo que perdemos.

O que é o porvir?
Algo que almejamos
como a melhor das utopias
felicidade suprema...

ana


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